Confusão das Modas

Depois das semanas de moda brasileira sempre se abrem as discussões sobre os rumos que a nossa moda está tomando. Mais especificamente a alta moda.

Sempre me lembro de uma entrevista para o Chic do Alexandre Herchcovitch falando sobre a SPFW. Na ocasião foi perguntado sobre o que ele achava sobre os novos estilistas e sobre o ingresso deles na SPFW e ele disse que quando se era reunida a comissão do fashion week para decidir os o nomes que ingressariam ele sempre dava ok para que qualquer marca entrasse, pois em um país do tamanho do Brasil, pouco mais de 50 desfiles tornam a moda muito mais restrita do que já é, e segundo ele quanto mais variedade de pessoas desfilassem mais diversidade poderíamos ver e mais referencias seriam trocadas. Mas mais do que trocar referencias onde eu to tentando chegar é até onde as pessoas no Brasil têm alguma noção de moda, e o quanto elas estão preparadas para encarar os principais desfiles do país – São Paulo e Rio.

Depois de ler o Caracteres com Espaço, fiquei pensando nisso. Não que quem escreveu o texto lá não tenha embasamento para isso, pelo contrário, mas fiquei matutando na minha cabeça o organograma da moda brasileira, se o formato é o ideal, se a abordagem é séria, etc.

Pra quem trabalha, vive ou simplesmente gosta de moda no Brasil é deprimente assistir ao telejornal de maior audiência da semana na TV mais popular do país – O Fantástico da TV Globo –  com uma abordagem totalmente desnecessária de desrespeitosa com quem trabalhou 6 meses ou mais para apresentar os desfiles  ver seu trabalho ser motivo de chacota em um dos programas de maior audiência do país.

Entrar na SPFW é assustador para qualquer pessoa normal, e ver um desfile pode ser mais ainda. Tem alguma coisa na moda que deixa as pessoas nervosas, assustadas, aflitas. E talvez este seja um ponto a favor.

Colocar pessoas normais dentro das semanas de moda pode se tornar um tiro no pé (da moda) a partir do momento que as pessoas se dispõem a falar do peso das modelos. É claro que temos casos de meninas que exageram, ficam doentes, abaixo do peso ideal, etc. Mas não há estilista no mundo que queria vender a imagem de uma menina mais gorda, com um corpo fora do lugar, este simplesmente não é o padrão de beleza que mulher nenhuma quer ser, é o pesadelo de qualquer uma delas.

Mas voltando a vaca fria – o formato das semanas de moda –  o formato brasileiro parece cada vez mais deficiente. É a chance única de cada estilista de mostrar o que sabe fazer de melhor em cada aspecto da moda, desde o sonho até a roupa em si. Não que os desfiles de ready-to-wear tenham que ser chatos, e fora daqui também tem o seu pé no conceitual, mas tudo se torna um pouco mais confuso. O estilista brasileiro devido a nossa própria cultura com moda, tem apenas uma chance de acertar por estação, é sua chance única de mostrar o lúdico, a arte, o sonho e a roupa. Nos desfiles de RTW pelo mundo parece mais aceitável que o estilista mostre coleções mais conceituais, pois além da bagagem de moda daquela nação, os designers tem mais oportunidades de mostras suas coleções, com desfiles exclusivos para suas clientes, coleções de alto verão, Cruise, mostras de arte, tapetes vermelhos, enfim, todo lugar onde as pessoas possam se vestir de suas criações e que reverberam mundialmente, fazendo sua moda extrapolar o nível das passarelas e entrar na casa das pessoas, em seu dia a dia, levando o lúdico e o comercial ao mesmo tempo. Seja vestindo uma celebridade com um vestido deslumbrante e absurdo em qualquer red carpet ( o lúdico) e depois estreando a propaganda de seu novo perfume, sapato, acessório no intervalo do mesmo evento transmitido ao vivo para o país inteiro.

Não dá pra culpar uma nação inteira pela sua alta moda, sabendo de todos os limites industriais e tecnológicos que o Brasil passa, onde uma camiseta fechada na china, custa muito menos que o metro de tecido e a mão de obra necessária para fazer a mesma camiseta aqui no país.  Mas nossa alta moda sempre teve medo do povo, de mostrar sua cara. Programas de televisão fora da MTV se recusam a falar o que as pessoas estão vestindo. Revistas especializadas descobrem o que nossas celebridades vestem nas novelas, e em festas e voltam esse conteúdo para a classe mais abastada. Revistas de fofoca que custam 1 real dificilmente falam qual a grife que a artista está usando na hora da foto, pois seria um tapa na cara do povo saber que aquele vestido custa 7 mil reais.

Eu acho o contrário, o brasileiro esquece o lúdico da moda. Donas de casa e milhares de adolescentes sonham em parecer com Sarah Jessica Parker, Britney Spears, astros do pop mundial, mas quantas têm o sonho de ser Ivete Sangalo? O brasileiro simplesmente esquece do sonho na moda e só se lembra do absurdo.

Os estilistas se recusam a associar suas imagens a personagens da cultura popular do país, acreditando na sua falta de sofisticação, mas é justamente aí que entra o sonho de milhares de mulheres no Brasil. Lady Gaga, Britney Spears, Christina Aguilera não são exemplos de requinte, e pergunte quantos designers brasileiros dariam um braço para vesti-las em qualquer situação?

A alta moda brasileira precisa perder o medo de se mostrar para o brasileiro como ela é. Com importações em baixa nos resta vender para as mulheres brasileiras, que têm sim sonhos e algum poder de compra. Imagino que poucas mulheres européias pisem nas lojas mais caras de Paris e paguem suas compras a vista, apesar de eles não terem a cultura do parcelamento, mas tem a cultura do cartão de crédito.

Usar o brasileiro a nosso favor antes de confundi-lo nas passarelas pode ser uma jogada  esperta.

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