A pós-fofura do Flaming Lips

 

“Porra, saiu disco novo do Flaming Lips!”. Eu ando escutando isso de muitos amigos meus nas últimas semanas, geralmente quando eu comento sobre o lançamento do duplo Embryonic, ou o coloco para tocar aqui em casa. Se o espanto de alegria é a primeira reação, o que segue é curioso.

 

Alguns gostam muito do que ouvem, outros reclamam que preferem o Flaming Lips de Yoshimi Battle the Pink Robots, lançado no começo dessa década. O problema é a quantidade de psicodelia “barulhenta” no álbum, em comparação com a fofura alimentada por Wayne Coyne e sua turma nos últimos lançamentos da banda.

Uma comparação pra começar. Repare na fofura de Yoshimi Battle the Pink Robots, que ganhou até animação bem feita por fãs no YouTube

 

Agora ouça I Can Be a Frog, de Embryonic, que não é tão estranha assim, já que é um single comercial

Se em ambos os casos a psicodelia é dominante, ela é explorada de formas diferentes. No mais recente álbum, há muito mais “barulho” eletrônico – sons que soam mais estridentes e dissonantes na composição da melodia. “Convinced of the Hex” e “The Sparrow Looks Up at the Machine” abrem o primeiro dos dois discos com muito peso, vozes sintetizadas, muita velocidade. Há uma “pausa dramática” em “Evil”, e depois o barulho volta em “Aquarius Sabotage”, uma viagem de cores pulsantes que lembra “Interstellar Overdrive” e todo o começo prolífico do Pink Floyd.

Uma curiosidade. Interstellar Overdrive e o primeiro álbum do Pink Floyd foram gravados na sala ao lado de onde os Beatles produziam Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band

 

O que segue é “See the Leaves”, que tem a melhor batida inicial de todo álbum, um grave que poderia servir de base para qualquer disco bom de metal (isso existe, eu juro, e prometo falar sobre o assunto a qualquer hora). Daí pra frente a coisa fica morna, até que começam as participações especiais.

São três, de dois artistas diferentes: o MGMT em “Worm Mountain” e de Karen O, vocalista do Yeah Yeah Yeahs em “I Can Be a Frog” – fazendo barulhos de animais -, e em “Watching the Planets”, a última do segundo disco. Karen O tem uma voz linda, muito melhor aproveitada aqui do que em sua própria – e chata (desculpem, fãs) – banda.

Com dezoito músicas ao todo, Embryonic é um disco satisfatório. Não é a grande peça musical de 2009, mas também não pode ser deixado de lado. Se eu sinto falta da fofurice de Yoshimi Battle The Pink Robots? Um pouco. Principalmente quando a garota imaginária começa a dar golpes de karatê no meio de uma música (os “Iááááás” são impagáveis). Mas o Flaming Lips que eu sinto falta mesmo é este aqui:

The Golden Path, música do Chemical Brothers cantada por Wayne Coyne

E por falar em velharias…

É engraçado como as coisas nunca casam. Eu ia falar de Johnny Cash nesta semana, mas já que entramos no assunto do Pink Floyd, vou me manter nele. Assim como eu prometo falar sobre bandas legais de metal qualquer hora, juro que escrevo sobre músicas sulistas norte-americanas a qualquer hora.

Muita gente leva em conta dois momentos distintos do Pink Floyd, mas acaba esquecendo de toda uma fase da carreira da banda. É indiscutível que há maestria quando se trata do Dark Side of the Moon, o conceitual álbum de 1973, e quase tão indiscutível que a banda repete o sucesso intelectual anos depois, em The Wall, de 1979. Só que isso não é nem de perto o mais legal do grupo britânico.

Existe todo um caminho traçado pelo Pink Floyd até o Dark Side of the Moon. É ele que garante a segurança da banda em experimentar musicalmente no disco. Porque a banda se permitiu explorar técnicas de gravações e instrumentos inusuais, como loop de fita – no primeiro caso –, e gongos – no segundo.

Por isso, o Pink Floyd concebeu toda uma obra de space-rock antes de mergulhar de vez na psicodelia: Piper at the Gates of Dawn (1967) – que tem “Interstellar Overdrive” -, A Saucerful of Secrets (1968, com um belo clima etéreo, e último álbum do vocalista original Syd Barrett), Ummagumma (1969), Atom Heart Mother (1970) – este é o famoso Disco da Vaca, a capa do álbum é uma foto do simpático ruminante, e, por fim, Meddle (1971).

Atom Heart Mother é, talvez, a chave para o sucesso do Pink Floyd nos anos 70 e à diante. Começa com uma peça instrumental de quase 24 minutos, repleta de cornetas, flautas, sons de carros, coros gospel. Daí, o disco passa para uma peça musical de três de seus quatro integrantes: “If”, do baixista Roger Waters, “Summer ’68”, do tecladista Rick Wright, e “Fat Old Sun”, até hoje tocada pelo guitarrista David Gilmour, que segue carreira solo. O baterista Nick Mason não participa com composição própria, mas ajuda nos efeitos de “Alan’s Psychedelic Breakfast”, uma brincadeira da banda. A música, que fecha o disco, mistura instrumentação experimental e um homem falando sozinho enquanto acorda, toma banho e prepara seu café da manhã.

Juro que eu queria colocar um vídeo de Atom Heart Mother aqui, mas no YouTube a música está dividida em suas quatro suítes (as peças musicais que compõe o todo). Mesmo assim, deixo o link para os curiosos.

Nesse entremeio, a banda ainda faz duas trilhas sonoras muito competentes, uma para o filme More, que embala música espanhola no psicodelismo, e Obscured by Clouds, um álbum estranho e meio ritualístico.

O Pink Floyd pós-Dark Side é meio carne de vaca, mas há Animals (de 1977) pra contrabalancear. É, talvez, o único disco de rock por assim dizer da banda. Guitarras, violência sonora, mais guitarras. E uma capa maravilhosa.

animals Pink Floyd

 

Bom, é isso. Hoje eu falei demais. Semana que vem eu tento ser mais contido. Prometo. Falou?

Falou…

Artur Tavares
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